Em uma palestra de um recente amigo, o Designer Ronald Kapaz, escutei uma afirmação que fez todo o sentido. “Vivemos num momento de transição em que a sociedade deixa de ser mais parecida com um triângulo, e passa se se parecer com um círculo”.

Esta afirmação conota a mudança na sociedade e nas empresas, onde partimos de estruturas bastante hierárquicas, rígidas e retas, para uma realidade mais dinâmica, curvilínea e sem vértices.

Recentemente fui consultado por uma empresa com a seguinte questão de um executivo de uma multinacional: “tenho uma demanda do board da companhia para criar um projeto de inovação para a empresa, inclusive investiram num curso em renomada universidade fora do Brasil. No entanto, por tudo que aprendi nesta universidade percebo que a minha empresa não possui a cultura necessário para que este projeto tenha sucesso e isso pode prejudicar minha carreira, até por que exigem uma projeção de resultados para algo que deve ser totalmente novo”.

Diante da colocação, o primeiro foi dar alguma palavra de conforto a este executivo, dizendo que ele está passando por situação similar à maioria dos executivos hoje no Brasil, inclusive eu mesmo já me vi nesta situação.

Até certo ponto, a inovação se tornou mais um modismo das empresas, assim como aconteceu na década com a sustentabilidade.

Digo até certo ponto, porque sem dúvida apenas a inovação pode dar respostas ao um ambiente que tem se tornado cada vez mais competitivo e dinâmico decorrente das novas tecnologias que surgem a todo tempo, assim como a sustentabilidade no caso de geração e valor a longo prazo.

No entanto muitas das empresas que anunciam seus planos ou iniciativas de inovação o tem feito de maneira superficial e consequentemente não sendo capazes de promover uma verdadeira mudança organizacional que permita que a empresa atinja os objetivos e resultados pretendidos. Esse é justamente o caso do executivo que me consultou, pois diante de outros questionamentos e provocações que fiz vários foram os indícios de que sua conclusão de que não essa projeção prejudicar a sua carreira estava certa.

Em casos como este, o primeiro ponto a se pensar é: qual a postura que você quer ter como executivo? Nesse sentido duas são as proposições.

A primeira é, mesmo sabendo que a inovação será infrutífera, leva-la a diante, e quando acontecer do resultado não aparecer, o que será bastante provável, contar com bastante habilidade política para eximir-se da responsabilidade pelo fracasso.

A segunda é de fato realizar um projeto de inovação que, independente da cultura da companhia, gere os resultados pretendidos além de impedir que a empresa seja ameaçada por empresas mais inovadoras, como também criar uma cultura capaz de promover a inovação sempre que for necessário.

No caso da primeira proposição, não posso fazer qualquer comentário, até por que não saberia orientar ninguém nesse sentido, uma vez que não acredito nele, embora saiba que é bem efetivo em carreiras executivas.

Mas como o executivo em questão tinha como alternativa a segunda proposição, o passo seguinte seria escolher o tipo de inovação mais adequada para esta situação, se a inovação aberta ou a inovação fechada.

O conceito de inovação aberta surgiu pela primeira vez no livro de Henry Chesbrough de 2003, intitulado “Inovação Aberta: Um Novo Imperativo para Criar e Lucrar com Tecnologia”, trazendo um contraponto ao modelo tradicional de inovação fechada, por isso também chamado de inovação tradicional.

Em linhas gerais estes dois tipos de inovação se diferenciam pelo fato de que a aberta acontece fora da empresa, com a participação de outras empresas, universidades, aceleradoras, incubadoras e startups. Ao passo que a inovação fechada acontece dentro da empresa, a partir do princípio de que ninguém melhor do que a própria empresa e suas equipes internas para promover a inovação, uma vez que estes são quem mais conhecem da empresa e do marcado que atuam.

A literatura acadêmica sobre inovação define em linhas gerais algumas situações que orientam que tipo de inovação deve ser aplicada, mas uma das questões mais importantes para se tomar esta decisão é o quanto a cultura da empresa está preparada para a mudança.

Assim como no sistema imunológico, uma inovação inserida no seio de uma empresa ainda não preparada para a mudança, será combatida até que seja eliminada, ao passo que se a inovação for primeira mente encubada entes de ser introduzida na empresa, passa funcionar como uma vacina,  em que o vírus é causador da doença é atenuado para então ser introduzido no paciente, provocando seu sistema imunológico a tornar-se mais resistente.

E no sentido da inovação aberta é que o caso em questão deve ser conduzido, incubando-se a inovação fora da empresa até que ela se desenvolvesse o suficiente para ser introduzida à companhia, provocando a cultura da empresa, tornando-a mais aberta à mudança.

A partir do momento que este novo projeto fosse introduzido de volta à empresa, influenciado sua cultura, ele não só estaria mais desenvolvido a ponto de tornar-se previsível para então se ser possível elaborar sua projeção de resultados, como também seria capaz de influenciar a cultura interna, tornando-a mais voltada à inovação.

Projeções financeiras rígidas e estruturadas para projetos inovadores, ou ainda, gerar inovação sem a cultura adequada para tanto é o mesmo que encaixar a bola no quadrado, ou melhor, como diria meu amigo designer, encaixar a bola no triângulo.

Texto escrito por Bruno Maranhão