Quem acompanha esta coluna talvez já tenha se dado conta de que qualquer mudança corporativa, sejam projetos de inovação, processos de profissionalização ou transformações digitais não são tão simples assim. Ao contrário, trata-se de algo bastante complexo e que envolve muitos riscos, inclusive de morte do negócio.

Estatísticas mostram que 75% das tentativas de mudança nas empresas fracassam. Mas como é que pode ser tão grande esse número se há tanto tempo a inovação é um desafio importante para as empresas?

Sempre vale relembrar que a inovação não é só tecnologia. Muito antes de softwares, banco de dados e microchips, a inovação e o empreendedorismo já eram áreas de conhecimento estudado pelas ciências humanas.

E esse é o principal motivo do porquê de projetos terem um alto índice de insucesso. Afinal não estamos lidando com máquinas, mas sim, primordialmente, com pessoas e seus paradigmas pessoais à mudança.

Nós, os humanos

Como resultado da seleção natural das espécies, a humanidade descobriu desde seu período mais primitivo que mudanças são uma ameaça à sobrevivência, por isso somos biologicamente programados a identificar, prevenir e evitar riscos. Por outro lado, a inovação incute necessariamente em correr riscos, e aí reside o fato de ser tão desafiadora.

Para desespero de nosso instinto primitivo, hoje a realidade social e econômica nos obriga a mudar constantemente em função da velocidade dos acontecimentos, e por isso a sensação de medo e insegurança diante do novo é cada vez maior.

Planos quinquenais, avaliações de desempenho anuais, extensas consultorias que duram meses para apresentar conclusões e resultados já não se apresentam efetivas diante dos desafios de mercados tão dinâmicos.

O psicólogo Robert Kegan associou a nossa resistência a mudança a um sistema imunológico. Seria como se repelíssemos a inovação, assim como nosso organismo nos protegendo de doenças e infecções.

Como resposta, idealizou um método de análise que chamou de mapa da imunidade. Segundo o professor de Harvard, nós humanos criamos barreiras ocultas e inconsciente para aquilo que devemos fazer, mas que não condiz com nosso desejo.

Mapa da Imunidade

O mapa da imunidade nos mostra que para se atingir um objetivo de mudança, deve-se realizar uma análise que passa por quatro passos, que em tradução livre para o português, seriam:

  • Objetivo: a meta que se quer atingir a partir de uma ação.
  • Ação: a ação ou omissão necessária para atingir o objetivo pretendido.
  • Compromisso oculto: o motivo real responsável pelo qual, inconscientemente, sabotamos a ação que deveria ser realizada para se atingir o objetivo.
  • Questão principal: o fator verdadeiro que deve ser analisado e resolvido para que então se determine uma nova ação que irá cumprir com o objetivo pretendido.

Para Kegan, a mudança ocorre por meio da análise da questão principal, o que determina uma outra ação que de fato alcance o objetivo real pretendido, que é alterado com a análise do compromisso oculto, que é a barreira para a inovação. Uma vez identificada e resolvida essa barreira, o objetivo verdadeiro é identificado, determinado uma ação mais eficaz.

De forma prática, imaginemos um projeto de inovação que tem como objetivo implantar um sistema de gerenciamento de estoque e logística, conhecido como WMS (Warehouse Management System).

Um projeto como esse é uma inovação na área de logística, que normalmente não é uma atividade fim da empresa, mas sim uma atividade meio, como é a atividade financeira ou de recursos humanos, no entanto, fundamental para o resultado de atividade fim de vendas.

Antes da implantação do WMS, sendo vendas a atividade fim, esta determina as condições para a atividade logística, sejam alterações de pedidos, atraso ou antecipações de entregas, dentre outras práticas que basicamente favorecem metas comerciais, mas prejudicam a eficiência logística.

Com a implantação de um projeto como este, a área logística passa a ter dados numéricos e controle da sua operação de tal forma a evidenciar que, na realidade, boa parte de  sua ineficiência decorre de ineficiências na área comercial, mas como esta possui muito mais influência de forma geral nas organizações por ser uma atividade fim, o projeto, que pretendia aumentar a eficiência e diminuir custos, acaba por ser abortado ou é implantado de forma ineficiente.

Analisemos agora esta situação à luz da do mapa da imunidade.

Ao identificarmos que a questão principal é o fato da empresa admitir ineficiências e custos elevados na área logística por medo de provocar mudanças na área comercial, torna-se mais evidente que a ação a ser tomada não é apenas implantar um software, mas sim criar processos e indicadores de eficiência operacional, tanto na área comercial quanto na área logística, antes da aplicação do software, de forma a equilibrar a relação de poder, eficiência e controle entre estas duas áreas, o que derrubaria a barreira à inovação gerada pelo compromisso oculto.

Uma vez que se resolve essa barreira da disputa de poder entre as duas áreas, o objetivo que antes era apenas implantar um software de gerenciamento de estoque passa a ser o de aumentar a eficiência, o controle e reduzir custos na área logística, o que por sua vez justifica o equilíbrio de poder entre as duas áreas.

O equilíbrio de poder entre elas é, na verdade, a principal barreira para a mudança, no entanto, em muitas situações reais de insucesso de projetos deste porte, as consequências podem ser a demissão dos líderes do projeto e o seu cancelamento, provocando desmotivação e prejuízos financeiros.

Mais uma vez, a inovação mostra que para ser prática, não basta a simples aplicação de tecnologia, mas sim lidar com o desfio de barreiras ocultas, próprias da subjetividade humana.