[Artigo publicado na Seção Inovação na Prática da Revista Potência ]

Por que algumas empresas são capazes de mudar outras não? Já falamos de muitos aspectos que respondem essa pergunta nesta coluna, e este artigo traz mais uma delas, mas que dificilmente é considerada: o reconhecimento.

Quanto se fala em reconhecimento, pensa-se muitas vezes apenas no reconhecimento financeiro aos colaboradores, o que é importante, mas certamente longe de ser o único.

O reconhecimento que se quer abordar aqui é amplo, com base na etnologia da própria palavra. O prefixo “re”, associado à palavra “conhecimento”, nos indica a ideia de admitir, aceitar, saber de algo que, no fundo, já sabíamos.

Vemos constantemente empresas tradicionais correndo atrás do espírito de inovação das startups, mas se esquecem que a grande diferença é que numa startup não há o que ser reconhecido, e sim apenas o que ser conhecido, pois em sendo uma organização temporária com um modelo de negócios inovador, tudo é novo.

Já na empresa tradicional, antes de surgir a necessidade dela se transformar, já existia um modelo de negócio anterior, uma filosofia de gestão de sucesso e pessoas que se construíram como profissionais com base nessa cultura até então estabelecida.

Mas a necessidade de se transformar se torna inexorável diante da realidade do ambiente de negócios da era digital, e muitas das empresas tradicionais não se dão conta de que não é possível usar as mesmas receitas aplicadas às startups, pois enquanto estas estão na fase do conhecimento, a empresa tradicional precisa se reconhecer para então inovar e se transformar.

Por isso se considera que na startup o digital está no centro de tudo, enquanto na empresa tradicional o digital começa na sua periferia, normalmente no marketing digital, e que se não for internalizado a transformação de fato não irá acontecer.

Uma vez entendido que enquanto nas startups a palavra é conhecer, na empresa tradicional a transformação bem-sucedida reside na palavra reconhecer, especificamente reconhecer que por mais que a inovação seja importante para o futuro da empresa, há que também reconhecer a importância da tradição.

Reconhecer a tradição significa saber quais são os valores intrínsecos à cultura e filosofia de gestão da empresa, e que provavelmente foi construída a partir das características pessoais de seus fundadores ou de executivos que influenciaram profundamente esses valores.

Também significa reconhecer seus limites, saber quais aspectos dessa cultura, por mais que se queira, não irão mudar, na maioria das vezes também determinadas pelas características pessoais de seus acionistas, em especial em empresas familiares, em que os valores e tradições da empresa se confunde diretamente com os valores e tradições da família empresária.

E por fim, o reconhecimento daqueles colaboradores que fizeram parte da história da empresa e que ajudaram a chegar até ali, mas que também estão dispostos a se transformar junto com ela se assim for necessário.

Por outro lado, esta mesma empresa tradicional também tem que reconhecer os efeitos da inovação nos dias de hoje, e que para seguir tendo sucesso, terá que reconhecer a necessidade e importância de se transformar, as dores que isso irá causar e quais são aqueles colaboradores que irão conduzi-la nesses novos rumos.

Se a decisão não vier de seu principal decisor, seja o dono ou um CEO, ela não irá acontecer. O patrocínio desse processo é fundamental para que ele ocorra, por isso se o principal decisor não reconhecer sua importância e necessidade, qualquer transformação será apenas de fachada.

Não é possível se transformar sem passar por algum desconforto. Demissões, disputas de poder, medo de perder o “status quo”, estão dentre os desafios.

E finalmente a inovação deve reconhecer aqueles profissionais que querem e são capazes de conduzir a empresa nesses novos caminhos. Portanto, se você tem um ou mais profissionais com o perfil empreendedor e capazes de fazer isso pela sua empresa, busque mantê-los! a não ser que não se importe desses profissionais eventualmente estarem à disposição do mercado para fazer isso pelo seu concorrente.

Reconhecer essas questões são os princípios que permitem que uma empresa possa aliar tradição e inovação e assim se transformar sem deixar de ser quem é.

Um exemplo de sucesso está sendo o Magazine, uma empresa fundada em Franca, interior de São Paulo, em 1959, tendo como uma das fundadoras Luiza Trajano. Atualmente é presidido por Fred Trajano, membro da terceira geração da família e que tem promovido um exitoso processo de transformação digital.

Além da governança corporativa que vem sendo construída desde a década de 90, seu processo de sucessão conseguiu inovar sem perder suas tradições.

A empresa teve valorização de 1000% de suas ações desde seu ingresso no mercado de capitais em 2011, e o comércio on-line corresponde hoje por mais de 60% das vendas.

Ao compararmos a trajetória da evolução do seu EBITDA com outras empresas que também promoveram mudanças ou são originárias da internet, seus resultados foram superiores.

Reconhecer quem somos, para aonde vamos e quem estará conosco nessa caminhada é uma atitude sábia para qualquer pessoa, e não é diferente para empresas em fase de transformação. Uma vez que a empresa adquire esta sabedoria pode unir tradição e inovação, não só para se transformar, mas também se tornar mais competitiva.