Em momentos como estes de pandemia, crise econômica e isolamento social, é natural que todos as nossas energias e recursos sejam direcionados àquilo que é estritamente urgente e necessário.

Famílias consomem o básico, empresas reduzem gastos e embora seja um momento em que a liderança e a solidariedade devessem sobressair, são naturais e até esperadas demonstrações da defesa de interesses particulares.

O mundo vem construindo uma sociedade global desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com a criação das Nações Unidas, passando pelos sistemas financeiro e as cadeias globais de comércio, chegando à hiper conexão dos dias de hoje.

Mas nem sempre foi assim, o mundo até então se organizava em famílias, comunidade e nações, muitas vezes conflitantes entre si, e que para que um grupo tivesse recursos, segurança e conforto, haveria que tirá-lo, algumas vezes à força, de outro grupo.

Preconceito, guerras e escassez eram o cenário com que a sociedade contava ao menos a cada dois anos durante a maior parte da história dos séculos VXIII e XIX.

O século XX é marcado pela ideia de uma sociedade global, em que a diversidade, a paz e abundância fazem parte da nova ordem mundial, criando a ideia de um futuro sempre melhor que o passado, gerando expectativas cada vez mais positivas.

Mas segundo o sociólogo Byung-Chu Ham em seu livro “A Sociedade do Cansaço”, esse movimento talvez já esteja indo além do que deveria. Analisa que vivemos um momento de excesso de positividade, em que a obrigação moral de sermos sempre abertos ao diferente, negar o conflito e a autoproteção nos está levando a uma sociedade cada vez mais ansiosa e deprimida.

É nesse contexto da humanidade que a inovação tomou uma relevância nunca vista antes na história. Todas as pessoas precisam ser um exemplo de virtude e êxito se si mesmas, e as empresas precisam ser escaláveis e exponenciais, até que a pandemia provocada pelo Corona Vírus nos impôs uma realidade de isolamento, crise e autoproteção, incutindo subliminarmente a ideia de que o outro era o problema, remontando temporariamente à humanidade o sentimento vigente dos séculos pré-modernos.

Isso poderia ter sido um freio para a ideia de uma sociedade global, baseada na diversidade, no compartilhamento e na abundância, mas ao contrário, foi justamente a inovação que tem tornado a ideia de isolamento mais aceitável e talvez até mais produtiva.

Muitas empresas tradicionais já pensavam a inovação como uma questão estratégica, outras mais que isso já haviam planejado projetos de inovação, para outras, no entanto, era apenas uma ideia distante. Resulta que hoje, todas elas compulsoriamente tiveram que colocar a inovação no topo de suas ações, seja poque foram obrigadas a implantar de forma repentina o regime de trabalho em home office, ou porque perceberam no e-commerce e no ensino à distância alternativas à crise econômica.

Todas as outras tentativas de inovação de muitas empresas não tiveram um sentido de urgência tão grande quanto a ameaça gerado por essa pandemia e uma vez que esse movimento foi tirado da inércia, não deveria ser utilizado apenas para diminuir perdas, mas também como uma chance de se criar novas oportunidades.

A curva de contágio é inversamente proporcional ao impacto econômico, e se o objetivo é achatá-la estendendo seus efeitos ao logo do tempo para não sobrecarregar o sistema de saúde, da mesma forma os efeitos econômicos também são estendidos no tempo.

Por outro lado, aquelas empresas que descobrirem as oportunidades em meio a essa crise, poderão, ao fim dela, ter superado importantes paradigmas à inovação, o que se tornarão vantagens competitivas permanentes.

Tenho assessorado empresas na sua transição para o trabalho remoto e essa oportunidade tem gerado enormes aprendizados e quebra de paradigmas, que certamente transformarão sua liderança e a sua filosofia de gestão.

Paradigmas de que as equipes não manteriam a mesma produtividade no trabalho remoto e de que a falta de supervisão direta levaria a aumento dos erros e dos riscos, não se mostraram verossímeis naquelas empresas que aprenderam que a administração por resultado, baseado no incentivo à autonomia e à responsabilidade sobre aquilo que é verdadeiramente importante, dão mais resultados que a gestão baseada no comando e controle com foco exclusivamente na urgência.

O e-commerce também passou a ser um projeto que de uma hora para outra tem sido tirado do papel, embora nem se possa dizer que é uma inovação nos dias de hoje, no qual boa parte do comércio já é realizado por essa modalidade.

Outro exemplo é o ensino à distância, que muitas vezes visto como alternativa de ensino de baixo custos, agora é encarado como deve ser, uma nova forma de aprender e ensinar, que se bem implantada poderá gerar uma pulverização do conhecimento jamais vista até então.

A inovação faz parte do meu cotidiano a quase uma década, e tenho desde então provocado empresas, associações e mercados a pensarem nos seus efeito e vantagens de forma prática e estratégica, e em todo esse período eu não consegui cumprir com essa missão de forma tão contundente quanto nos últimos meses por conta dessa pandemia, mas o ideal é que a transformação de nossos negócios não dependa de dores tão grandes, que traz junto mortes e isolamento, mas sim que o amor, e não a dor, fosse o maior combustível para essa transformação.

O fato é que vivemos dias dramáticos, que se por um lado causa muita dor e sofrimento, por outro pode ser o sentido de urgência que faltava para descobrirmos as oportunidades por detrás da crise, sendo um divisor de águas para pessoas, sociedades e empresas finalmente tornarem a ciência, a inovação e o amor, os únicos meios viáveis para uma verdadeira evolução da humanidade.